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Criança Montessori

A fase do morder e do bater

18 de Julho, 2018

Aos pais e cuidadores de Crianças com idades entre o ano e meio e os três anos, quem nunca passou pela fase em que as Crianças mordem e batem?

Hoje vamos falar um pouco sobre este tema. É uma fase normal e pela qual todas ou a maioria das Crianças passa. Numa altura de Primavera/Verão pode ser ainda mais visível apenas pelo facto de as Crianças andarem mais frescas e as marcas serem mais visíveis.

Pode, por outro lado, representar uma fase de stress e ansiedade para os pais e/ou cuidadores por parecer que nunca mais passa ou por não saberem bem como lidar com a situação.

Há alguns pontos que importa reter logo de início:

  • É uma fase normal e natural
  • Os pais e/ou cuidadores não têm culpa da situação
  • É uma fase passageira e existem várias coisas que se podem fazer para ajudar as Crianças nesta fase.

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Porque mordem as nossas Crianças?

A ocorrência de mordidas reflecte não apenas os sentimentos das Crianças, mas também a sua incapacidade de usar linguagem expressiva. As Crianças geralmente mordem para expressar alguns sentimentos, que ainda não conseguem fazer verbalmente, tais como:

  • Medo
  • Raiva
  • Frustração
  • Para se imporem perante alguém (por exemplo, para obter / receber algo de outra Criança).

Outras situações existem que podem causar algum stress e ansiedade na Criança e que podem levar à ocorrência de mordidas ou agressões. Veja-se, por exemplo, a chegada de um novo bebé ao seu ambiente ou a mudança de escola.

Nesta faixa etária as Crianças encontram-se no período sensível da Ordem, como explicamos no artigo “Períodos Sensíveis”, por isso qualquer alteração à ordem normal da Criança e à sua rotina podem desencadear este comportamento. O excesso de estimulação ou excitação também pode levar a este tipo de reacções.

As nossas Crianças nestas idades são ainda um livro em branco em diversas matérias, e os sentimentos são uma dessas matérias. Cabe ao adulto dar-lhe ferramentas para ultrapassar esta fase da forma mais tranquila possível.

Dentadas na sala de aula

Há algumas coisas que os educadores podem fazer para melhorar a situação em sala de aula. O adulto responsável pela sala deve observar com muita atenção todas as suas Crianças e perceber em concreto quais as Crianças que estão a apresentar este  tipo de comportamento. Deve permanecer mais tempo por perto dessas Crianças para que possa intervir de forma mais eficaz sempre que a situação aconteça. A este comportamento chamamos de “colagem”, ter a Criança por perto permite esperar, intervir e redireccionar o comportamento antes que a próxima situação de dentada aconteça. Além disso, ao observar-se cuidadosamente cada Criança e ao documentar-se quando e como a Criança morde, será possível perceber um padrão nesse comportamento.

Além disso, usar uma linguagem positiva ajuda as Crianças a aprender como verbalizar os seus sentimentos. Para ambas as Crianças, é importante enfatizar que as dentadas magoam e elas não se querem magoar. Frases positivas que redireccionam o comportamento são úteis.

Exemplos de algumas frases:

  • Nós mordemos maçãs e cenouras, não pessoas. Morder dói.
  • Às pessoas nós damos abraças e beijinhos, não podemos morder.
  • Se queres dizer alguma coisa ao Manuel podes falar, não podemos morder.
  • “Vejo que estás a tentar morder o Francisco, não podemos fazer isso aos nossos amigos, queres ir fazer um desenho?
  • Vejo que estás a tentar morder o Tiago, isso magoa, queres dar-lhe um abraço?

Deve-se incentivar a Criança a “tocar bem” e a “ser gentil”, sempre de forma calma e pacífica.

No caso  daquelas  Crianças que mordem para obter objectos de outros, devemos ajuda-las a colocar as emoções em palavras, como por exemplo:

  • Vejo que estas com raiva. Não queres que a Sara brinque com esta pá.”

Isso ajudará a Criança a fazer a conexão entre o que ela está a sentir e os nomes dessas emoções. Deve-se oferecer à Criança um vocabulário tão rico quanto possível para que ela se possa expressar de uma forma aceitável. Devemos dizer e explicar que está tudo bem em nos sentirmos zangados ou frustrados, contudo morder não é opção. Temos que explicar à Criança como ter cortesia perante o outro, isto é, o que se deve dizer quando quer brincar com a bola, o que deve dizer quando não quer dar o brinquedo com que está a brincar, etc.

É bastante importante fornecerem-se todas as ferramentas necessárias à Criança para que ela se consiga expressar da melhor forma tendo em conta a sua idade.

Outros ensinamentos muito importantes para esta fase correr de forma mais tranquila é o ensinar a esperar pela sua vez para brincar com determinado objecto e dizer “obrigado” sempre que consegue de forma tranquila o brinquedo que queria. Estas questões devem sempre  partir dos adultos, por exemplo:

  • Mostrar à Criança como partilhar com o adulto, pedindo algo com cortesia e agradecendo sempre no final;
  • Mostrar à Criança como esperar por um objecto que está a pedir não dando tudo o que a Criança pede de imediato, explicando que agora está a ser utilizado e que assim que terminar ser-lhe-à entregue, devendo esta palavra ser cumprida (claro que falamos de objectos seguros para a Criança), isto minimiza o comportamento futuro de morder por não obter o que quer quando quer;
  • Mostrar à Criança que não pode obter tudo o que quer. Por exemplo, está a almoçar e a Criança quer comer com o garfo da mãe e não com o dela, em momentos de tranquilidade, deve-se explicar que cada um tem o seu garfo e que por isso a mãe não lhe dará o garfo dela. Isto são pequenas situações mas que farão com que a Criança vá lidando com a frustração de não ter sempre o que quer quando quer de forma mais pacifica, preparando-a assim para quando tenha de lidar com estas situações entre amigos e consiga já responder de outra forma que não inclua morder ou bater.
  • Sempre que pedimos para a Criança realizar alguma tarefa (apanhar o livro, trazer o copo, arrumar o brinquedo) devemos agradecer à Criança depois da tarefa concluída.

Tudo isto são pequenos passos que contribuem para Crianças mais calmas e preparadas para estas idades que representam exigências emocionais e intelectuais imensas.

Como já referido, esta questão de morder ou bater tem a ver essencialmente com uma imaturidade emocional por parte da Criança, além da linguagem ainda não se ter desenvolvido. É papel do adulto ter muita calma e paciência nestas fases e redireccionar positivamente sempre este tipo de comportamentos, pois só assim as Crianças irão adquirir saídas positivas para as suas emoções.

Outro ponto bastante importante nestas situações em sala de aula é que o nome da Criança que morde nunca deve ser revelado aos pais da Criança mordida, pois isso pode gerar situações de conflito entre os pais, e não servirá para nenhum propósito útil e pode dificultar uma situação já de si complicada.

Nota para pais com Crianças que estão a morder

Até nas melhores creches/infantários/escolas ocorrem episódios de dentadas. Esta acaba por ser uma consequência inevitável de Crianças pequenas que são cuidadas em grupo.

Quando nos deparamos com esta situação é assustador, muito frustrante e muito stressante para as Crianças, pais e funcionários. Mas, por mais lamentável que seja, é um fenómeno natural. Nunca devemos culpar quer sejam as Crianças, os pais ou os educadores e acima de tudo temos que ter em mente que não existem soluções rápidas e fáceis para estas situações.

Nós como adultos, perante uma situações destas, temos que nos munir de informação, conhecimento, amor e paciência para que consigamos resolver o problema da melhor forma possível.

Umas das primeiras coisas a reter é que as  crianças mordem por várias razões:

  • Exploração sensorial;
  • Pânico;
  • Medo;
  • Raiva;
  • Chamadas de atenção;
  • Desejo intenso por um brinquedo.

Dentadas repetidas tornam-se um padrão de comportamento aprendido e quando este comportamento não é detectado a tempo pode ser ainda mais difícil de extinguir, isto porque a Criança perceber que com este comportamento consegue obter os resultados pretendidos: o brinquedo desejado, a excitação, a atenção.

Aqui ficam algumas dicas, tanto para pais como para educadores, do que fazer para tentar extinguir o comportamento de morder (tendo sempre em conta que não existe uma fórmula mágica para extinguir o comportamento):

  • Quando uma criança é mordida, evitamos qualquer resposta imediata que reforce a mordida, incluindo a atenção negativa e a palavra “NÃO” ou “Não faças isso!”. As Crianças consideram qualquer atenção, como reforço positivo, independentemente de a atenção ser pretendida como negativa. Devemos sempre ter uma conversa com a Criança que apresentou o comportamento (referimos alguns exemplos do que dizer anteriormente), essa conversa deve ser calma, tranquila e tida sempre ao nível dos olhos da Criança.
  • Nós olhamos intensamente para o contexto de cada incidente de morder por padrões. Houve aglomeração, excesso de estímulo, poucos brinquedos, muita espera, frustração? A Criança que está a morder recebe atenção suficiente, é-lhe dado o cuidado e reforço positivo apropriado para ela não morder? A Criança que está a morder precisa de ajuda para se envolver em brincadeiras ou fazer amigos?
  • Trabalhamos com cada Criança que está a morderpara resolver conflitos / frustrações de maneira apropriada.
  • Tentamos adaptar o ambiente e trabalhar com os pais para reduzir o stresse infantil.
  • Fazemos esforços especiais para proteger potenciais vítimas.

Em suma:

Motivos que levam a Criança a morder:

  • Crescimento da dentição;
  • Exploração Sensorial;
  • Imaturidade emocional;
  • Stress;
  • Ansiedade;
  • Frustração;
  • Medo;
  • Excitação;
  • Fraca aquisição de linguagem.

O que fazer enquanto pais:

  • Perceber o padrão de comportamento (só acontece em casa, só acontece na escola, só acontece com Crianças ou também morde adultos, em que situações ocorrem as mordidas);
  • Ter muita calma e paciência para lida com a situação;
  • Fornecer às Crianças ferramentas para expressarem as suas emoções;
  • Falar com a os educadores e/ou intervenientes na educação da Criança para desenvolverem estratégias para a resolução do problema em conjunto;
  • Perceber se a Criança passou por alguma situação de stress, ansiedade, alguma alteração de ordem nas suas rotinas, se lhe está a ser prestada a atenção necessária. Muitas vezes uma alteração de cargo no trabalho por parte dos pais pode levar a menos tempo disponível para elas e potenciar estes comportamentos. A chegada de uma nova Criança também pode estar na raiz do problema, etc.;
  • Estas situações a cima de tudo devem ser levadas e resolvidas com muito amor por parte de todo o agregado familiar, devemos ter sempre em mente de que se trata de uma fase natural e que irá passar. Nenhuma Criança deve ser tida como má ou mal educada por estar a passar por esta fase.

O que fazer enquanto educador:

  • Observar com frequência e atentamente as suas Crianças para perceber o padrão de comportamento;
  • Há varias Crianças a passar por essa fase ou é apenas uma ou duas em especifico? Quando a Criança morde foi provocada, alguma Criança lhe bateu, mordeu antes?;
  • Fornecer às Crianças ferramentas para expressarem as suas emoções;
  • Nunca divulgar o nome da Criança que apresenta o comportamento de morder;
  • Prestar especial atenção às potenciais vítimas para que sejam protegidas, sem que as outras Crianças o percebam;
  • Em situações de mordidas sucessivas por parte da mesma Criança devemos fazer “colagem” a essa Criança para que se possam antecipar comportamentos de mordida e assim proteger as duas Crianças.

O que nunca fazer:

  • Nunca devemos partir para a agressão, isso irá transmitir à Criança que violência se resolve com violência;
  • Nunca devemos agir por impulso no momento da mordida, isto é, devemos manter a calma e não reforçar negativamente a acção.
  • Nunca punir a Criança negativamente nem no momento nem posteriormente em casa. Deve ser tida uma conversa calma e clara com a Criança sobre o sucedido sem despertar na Criança mais sentimentos e emoções que não consiga exprimir.

No nosso próximo artigo iremos dar algumas ferramentas de como ajudar as nossas Crianças a lidar com as emoções.

Nunca se esqueçam, é apenas uma fase e devemos sempre agir com calma. Estamos a trabalhar numa “Educação para a paz”.

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