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Professora do Público com Montessori no Coração

28 de Julho, 2020

Ana Faria Kaiowá é uma mulher que, sem saber, decidiu mudar o mundo, mudando o mundo na sua sala de aula, através da aplicação adaptada do Método Montessori.

Professora de Ensino Público, apaixonada por Crianças e genuinamente defensora da importância de ensinar em respeito pelos ritmos e características de cada estádio de desenvolvimento, mãe, “psicóloga” quando é preciso, detentora de um sentido de Humanidade enorme. É uma prova de que mesmo com as limitações típicas do Ensino Público, há muito que se pode fazer para introduzir grandes mudanças nos contextos educativos públicos convencionais, mudanças essas que refletem cada vez maiores transformações em benefício da aprendizagem e crescimento das Crianças.

Como tudo começou…

Reconhece, primeiramente, que a sua própria Educadora de Infância já utilizava as bases do Método Montessori de ensinar, o que a ajudou a interiorizar e compreender melhor a própria filosofia subjacente. Enquanto Professora de 1.º Ciclo sempre tentou que as aulas fossem à base da interdisciplinaridade, e no seu grupo de estágio fizeram inclusivamente muitos materiais manipulativos, antes mesmo de conhecerem mais a fundo o Método: “percebemos que as Crianças aprendem muito melhor através de dinâmicas ligadas ao movimento, teatros, uso de materiais de matemática, começámos a construir o MAB (material multibásico de base 10) sem sabermos que existia.” Mais tarde, e já após a formação no Método, começou a utilizar materiais e princípios Montessori em contexto de Apoio Educativo Escolar, e quando se tornou Professora titular de turma no Ensino Público “pareceu-me impossível voltar ao modelo anterior, com os resultados excelentes que tinha alcançado com a liberdade de escolha.”

A chegada de Montessori à sua prática enquanto Professora do Ensino Básico começou quando foi colocada numa pequena localidade no Alentejo, onde por força do encerramento de diversas escolas por falta de Alunos, Ana, e muitos dos seus colegas de Agrupamento, viram-se em mãos com turmas mistas, que englobavam os quatro primeiros anos de escolaridade.

Ciente da violência e da exigência curricular implicadas na necessidade de dominar e ensinar quatro currículos diferentes, que conduz inclusivamente muitos professores colocados na mesma situação a estados de esgotamento, sabia e sentia que uma solução teria de encontrar. E encontrou essa solução no Método Montessori.

Já conhecedora do Método e dos seus benefícios sabia, no entanto, que um novo desafio teria pela frente: o de contornar o convencionalmente aceite e pré-determinado pelo Sistema, para poder então levar os seus Alunos a beneficiarem da aplicação do Método, ainda que de forma adaptada. Dedicou então alguns dias das suas férias a elaborar novas planificações assentes na conjugação das metas educativas com as soluções propostas pelo Método Montessori, tendo apresentado em seguida essas novas planificações às suas colegas do Departamento do 1.º Ciclo, como algo que poderia resultar face ao contexto desafiante de turmas mistas que tinham em mãos.

Aquilo que inicialmente era um problema a resolver acabou por ser a porta de entrada de Montessori num contexto de Ensino Público. De acordo com esta pedagogia, a mistura de faixas etárias é suportada pela dinâmica relacional que cria entre os mais novos e os mais velhos, ao que acresce uma forte componente de promoção de espaços de autonomia e de trabalho independente por parte das Crianças, deixando assim os Professores mais libertos para se dedicarem de forma mais individualizada aos diversos Alunos.

Esta solução veio efetivamente a demonstrar bons resultados. “O princípio estava lá, e os resultados também.” Por outro lado, a verdade é que Ana sempre se identificou muito com a linha de pensamento defendida pelo Método, afirmando hoje que era já uma “montessoriana”, mesmo antes de o saber.

E os pais?

Num meio rural, mais fechado, confessa-nos ser natural a existência de uma maior resistência à mudança. No entanto, nem isso a fez baixar os braços, e da barreira que inicialmente encontrou por parte dos pais, criou uma ponte para a mudança através dos resultados: “a partir do momento em que os pais começaram a ver resultados, começaram a acreditar.” Tentou inicialmente envolve-los na Pedagogia, mas rapidamente percebeu que os pais, desejando o melhor para os seus filhos, mais do que informação ou de que um desejo de contactar diretamente com a Pedagogia, precisavam de ver resultados a acontecer.

E, em pouco tempo, esses resultados estavam à vista de todos.

A reação da Turma

Ana foi introduzindo progressivamente pequenas mudanças no seu ambiente educativo, pequenas mas que foram fazendo toda a diferença. Quando não estão a fazer o ensino formal, convencional, as Crianças podem ir para os espaços de inspiração Montessori, e “começamos a ver logo resultados, o ensino torna-se mais interessante, mais dinâmico.”

Inicia os seus dias com o grupo do 1.º Ano enquanto os restantes grupos vão fazendo o trabalho autonomamente, de forma individual ou em grupo. Nota sobretudo uma maior facilidade neste tipo de abordagem nos Alunos que começaram com este Método logo desde o início. “Não precisas de fazer Montessori o dia todo, nem podes se queres conseguir cumprir todos os programas.” Mas a verdade é que, não obstante a limitação do tempo nos espaços de autonomia, a verdade é que esta postura fez “uma diferença enorme nos miúdos, com resultados ao nível da autonomia e independência, e de criatividade, fazem trabalhos de projeto por iniciativa própria, coisas verdadeiramente surpreendentes. Também mais tarde com a questão do Ensino à Distância por conta da situação de pandemia, as aprendizagens também acabaram por ser mais completas pois as Crianças que já tinham tido um contacto com materiais na sala de aula, acabam por reconhecer automaticamente os conceitos associados.”

Como funciona na prática

Simplicidade nas coisas a fazer: deixar materiais à disposição dos Alunos, definir espaço para as diferentes áreas.” Desde o início Ana tinha um objetivo em mente: torná-los o mais autónomos possível o mais depressa possível, para que fosse exequível dar todas as aulas. E acredita que fazendo um bom trabalho de estabelecimento das bases de funcionamento do Método com os Alunos do 1.º Ano, os anos seguintes serão mais fáceis pois estes conseguem mover-se entre as aprendizagens de forma muito mais autónoma. É algo que tem vindo a comprovar com os seus Alunos mais velhos.

São notórias para Ana as diferenças existentes entre os Alunos e procura respeitar essa diferença o máximo que consegue: “há Alunos que não se interessam tanto pelo Estudo do Meio ou outras atividades, mas que, por exemplo, são Alunos extremamente produtivos a nível de criações, da criatividade. Por este motivo, desenvolvi um espaço de Expressão Plástica e Musical, e são livres para ir aí trabalhar nestes momentos mais livres: Não são tão a favor dos desafios mas aqui brilham”.

Incentiva sempre que possível os Alunos a moverem-se entre os materiais para encontrarem soluções ou as respostas a questões surgidas, que podem inclusivamente ser determinadas previamente, conciliando assim as exigências curriculares com uma aplicação do Método à forma de concretização da aprendizagem. Por outro lado, quando alguns Alunos mais novos lhe perguntam questões, incentivava-os a irem perguntar aos mais velhos, dinâmica que afirma ter-se mostrado de uma grande eficácia. “Os mais velhos acabam por equilibrar os mais novos.”

Em Português, por exemplo, dá-lhes alguma autonomia na escolha do texto que querem trabalhar, e nota que sobretudo os Alunos do 3.º e 4.º anos já trabalham com imensa autonomia. Sentem-se valorizados, respeitados, tidos em consideração. “Tento dar aulas como se fossem uma apresentação Montessori, com materiais e muita assertividade nas palavras. O meu sonho era fazer apresentações de acordo com o ritmo de cada Criança, mas como ainda não posso fazer isso tento reforçar as aprendizagens de quem mais precisa.” Assim, num dia normal terminam os trabalhos pré-determinados e são livres para trabalharem no que querem, com natural supervisão, procurando, durante esse tempo, assistir cada Aluno individualmente de acordo com as suas próprias necessidades e ritmos.

“A Gramática Montessori é um material que eu cada vez mais gosto de utilizar, pois torna a aprendizagem da mesma mais simples e mais divertida. E assim, em forma de brincadeira, estava a fazer revisões com o meu 3.º e 4.º Anos, e os pequenos do 2.º Ano não paravam de olhar e de responder às questões. Conclusão: aprenderam de umasó vez o que são nomes, determinantes artigos, verbos e adjetivos. Não que a coisa tenha ficado a cem por cento e a noção estabelecida por completo (agora falta a repetição e o treino que são super importantes na real e efetiva aprendizagem), mas basicamente as sementes estão lá e, numa semana, aprenderam a matéria de Gramática para o ano inteiro!”

Para mais informações e sugestões sobre o ensino da Gramática, Ana deixa uma explicação muito clara no seu blog, aqui.

E a Observação?

No meio da gestão de tempo que implica transmitir conteúdos curriculares aos Alunos de um ano de escolaridade, enquanto procura assegurar que os restantes trabalhem de forma autónoma, o tempo para observação acaba por ser limitado. No entanto, tenta observar o mais possível, sobretudo quando estão em trabalho livre e quando não está a dar apoio individualizado a outra Criança. Nessas oportunidades procura identificar o que lhes está a chamar a atenção e o que poderá ser retirado, assegurando assim a rotação de materiais tão típica nas salas Montessori. Ambientes dinâmicos que procuram ir de encontro às Crianças, em constante evolução.

E os Materiais?

Em relação aos materiais, “como é uma escola muito pequena, tive a sorte de receber os materiais de todas as escolas que fecharam à nossa volta, e por isso temos imensos recursos (pipetas, tubos de ensaio, materiais de química, muitos materiais do tempo da telescola de há quarenta anos atrás). Como muitas destas escolas que entretanto fecharam tinham também salas mistas, dispunham de inúmeros materiais manipuláveis.” Naturalmente chegaram à mesma conclusão que Ana e os seus colegas, de que sendo materiais manipuláveis de forma autónoma, o Professor ficaria mais livre para assegurar todas as turmas.

Os materiais estavam fechados nos armários e arrecadações da escola, e a Ana tirou-os e disponibilizou-os aos seus Alunos, com toda a confiança que eles merecem. Além desses materiais, faz a própria muitos materiais e outros compra. Como também aplica Montessori em casa, com os seus filhos de dois e cinco anos, muitas vezes compra materiais e vai dividindo entre a escola e casa.

Aponta os materiais de matemática Pérolas Douradas e as Tábuas de Seguin, como dos seus materiais de eleição. No fundo, os primeiros correspondem ao material MAB, muito utilizado também no Método Singapura. Para os Alunos do 1.º Ano, como ainda se encontram numa fase, ainda que final, da Mente Absorvente, torna-se bastante fácil a aplicação dos Materiais Montessori, pois os Alunos ainda se encontram muito sensíveis a esses materiais que “fazem milagres”.

Para os Alunos do 2.º Ano, com o início do plano da Mente Racional, começa a torna-se evidente o interesse pela Educação Cósmica, pela forma como tudo está interligado, e que caracteriza precisamente a configuração do Método para esta fase de aprendizagem. É notória a forma como esses Alunos ficam absolutamente fascinados com a Lição da Criação do Universo que integra essa Educação Cósmica.

Juntamente com estas explicações, recria no Ambiente espaços com materiais e experiências que possam ilustrar os ensinamentos: “fiz uma experiência de rebentar um balão que estava associada ao Big Bang. Educação Cósmica é dar a História apetrechada de experiências para torná-la mais interessante e manipulativa. Tive também de repetir a experiência do vulcão quinze vezes, e deixei o material na prateleira para fazerem quando quiserem. Adoram fazer experiências, e os Alunos do 1.º Ciclo adoram fazer experiências com SENTIDO.

Muitas inspirações sobre Educação Cósmica do blog de Ana aqui.

A aplicação prática dos princípios mais sólidos do Método

Em relação à Autonomia, ações tão simples como as de beber água ou ir à casa de banho estão totalmente entregues às Crianças, não lhes exigindo que peçam antes de o fazer. Esta atitude demonstra um profundo respeito pelas Crianças, mas reconhece, no entanto, que o facto de ser uma escola pequena em muito facilita a introdução deste nível de autonomia: “há sempre adultos em movimento na escola e isto dá confiança aos Alunos para reconhecerem e suprirem autonomamente as suas necessidades.

Por outro lado, procura ao máximo evitar os castigos, elogios e as recompensas, rejeitando, por exemplo, as tabelas com as cores associadas aos comportamentos. Procura reconhecer individualmente cada Criança não tanto pelo trabalho que desenvolve, mas sim por aquilo que é. Procura ainda encontrar todas as oportunidades para incentivar o desenvolvimento do seu pensamento crítico e sobre as mais variadas situações que surgem no dia-a-dia, como conflitos. “Uma vez por mês realizamos uma Assembleia de Escola para promover o surgimento de ideias, para ouvir as Crianças e os seus problemas, para obtermos lições mútuas. Temos de os ouvir mais, e logo aqui conseguimos resolver muitas situações relacionadas com gestão de conflitos, problemas inter-relacionais e inter-raciais, etc.

Dão também, desta forma, foco ao desenvolvimento de projetos ao nível da Cidadania que se focam em muitas questões transversais a uma vivência pacífica e tolerante em sociedade, e resolvem muitas questões que de outra forma seriam resolvidas com castigos, gritos, e métodos mais repressores do que verdadeiramente solucionadores e expansivos.

De um modo geral, procura levar consigo os princípios e valores estruturantes do Método. “Dou as aulas a fazer perguntas e ponho-os a pensar e a procurar respostas a partir das suas experiências e realidades, e através dos materiais.” De certa forma, procura “desmistificar a ideia de que professora está certa só porque está certa.

Como nos diz Ana, “demora a normalizar mas chegam lá, e chegam ao terceiro período e muitas vezes consigo ter toda a turma a trabalhar autonomamente.

A gestão do tempo de brincadeira livre no Recreio

As Crianças precisam de movimento. É algo vital para a sua vida e para o seu desenvolvimento, e por isso Ana dá-lhes a máxima liberdade de movimento possível, quer na sala de aula, quer no recreio, não os bloqueando. “Podem usar o chão, o que quiserem. Sentam-se em grupo, podem mover-se. E em relação ao recreio, temos a vantagem de ter aquele recreio mais tradicional.”

Reconhece que o tempo estabelecido para o recreio é muito limitado, mas vai tentando gerir o melhor que pode as exigências a que está sujeita. Neste esforço constante de respeitar o mais possível as necessidades vitais das suas Crianças, o Agrupamento da sua escola e o seu Departamento do 1.º Ciclo conseguiram, inclusivamente, uma readaptação do horário, no sentido de trabalharem mais de manhã, procurando acompanhar o ciclo de três horas de trabalho existente em Montessori, para no resto do tempo fazerem atividades mais livres, designadamente no exterior. Quando sente que uma Criança está a precisar de movimento, não hesita em perguntar-lhe se precisa de ir correr um pouco, desde que esteja naturalmente assegurada a sua supervisão.

A situação da Pandemia…

Confessa que inicialmente foi muito difícil gerir toda a situação no meio da normal ansiedade sentida por todos. No entanto, tudo acabou por acalmar. Como os pais já a conheciam e confiavam nela, acabou por conseguir orientar-se e adaptar-se numa perspetiva de tentativa/erro. Procurou envolver os pais em toda a nova dinâmica, e criou documentos PowerPoint para todos os seus anos de escolaridade, onde procurou utilizar as imagens dos materiais que já tinham utilizado anteriormente na sala. Mesmo não estando a manipula-los, a verdade é que o facto de já o terem feito anteriormente cria uma impressão sensorial que permanece, e que facilita assim a aprendizagem.

Ana escreveu todo um artigo intitulado “Gramática Montessori em Ensino à Distância ” que vale a pena ler aqui.

Desta forma, tendo adaptado os materiais ao PowerPoint, acabou por ver excelentes resultados, acreditando ter muito a ver com toda a dinâmica da sala ensaiada anteriormente. Confessa, no entanto, que o trabalho com os Alunos do 1.º ano foi o mais desafiante, pois, como referiu acima, são Crianças que ainda se encontram na fase da Mente Absorvente, onde a aprendizagem se concretiza sobretudo através dos sentidos. São Crianças que “ainda precisam de usar a mão para construir a inteligência. Precisam mesmo.” Para tentar colmatar esta necessidade, deu sugestões para o uso de Legos, Palitos (do método ABN) para ajudar a esta construção, entre outros materiais que se podem encontrar em casa, mas ainda assim notou-se a necessidade de mais tempo de escola para estes pequenos.

As suas Inspirações

Como inspiração refere os artigos de Gabriel Salomão, do Lar Montessori. Além disso, segue ainda uma Professora e Ensino Público em Espanha que também levou Montessori para dentro da sala, Seño Vanessa Cano .

Para uma imersão em todo o trabalho desenvolvido por Ana, nada como visitar o seu Blog Montessori em Nossa Casa, dotado de uma clareza, objetivdade e inspiração que farão a diferença.

Formação

Como não existem formações no Método Montessori no Alentejo, como o Ministério da Educação não inclui formações desta natureza nos seus centros de formação, e como os próprios Centros de Formação não renovam as suas formações, procura a própria fazer formações autonomamente.

Aconselha sobretudo as formações do Centro de Estudos Online de Gabriel Salomão, do Lar Montessori, principalmente para uma fase inicial de aprendizagem do que é Montessori. No entanto, têm surgido em Portugal novos formadores, nomeadamente pessoas que se apaixonaram por Montessori e decidiram tirar o curso de Guia e outros especializados. Ana Faria recomenda que se procure fazer formações com estas pessoas, para garantir a qualidade nas aprendizagens.

A última formação que fez foi específica em Educação Cósmica, junto da Escola Montessori do Porto, que recomenda vivamente, recomendando ainda as formações de Mercedes Urbiola da Escola Galicia Montessori.

Montessori transformou-a?

Montessori fez-me dar uma volta de cento e oitenta graus como pessoa e como professora.” Esta transformação inferior, este reconhecimento e constatação das capacidades cognitivas da Crianças não a faz desistir de procurar contornar o Sistema o mais que consegue, em prol das Crianças. “Têm uma força vital interna, não precisamos de estar a massacrar a Criança pois ela quer aprender por ela própria, temos só de alimentar a sua natureza extremamente curiosa e interessada no conhecimento, ao invés de a estragar.”

A própria forma como lida com as Crianças foi profundamente alterada pois sabe que as ações que vão de encontro às características e potencialidades de cada Plano de Desenvolvimento não castram nem reprimem as Crianças. “Tenho naturalmente limites, mas tento respeitar ao máximo a natureza da Criança, reconhecendo as suas necessidades e tentando balancear isso com o resto.” Sempre acreditou neste tipo de aprendizagem, e os resultados ao nível dos seus Alunos são visíveis: “os miúdos do segundo ano já estão ao nível do terceiro em inúmeros aspetos e com um percurso incrível, o que tenho a certeza foi por conta da abordagem.”

O Sistema de Ensino e o Alentejo

Ana Faria sente na sua prática educativa o desgaste provocado pela exigência do aparelho estadual educativo, não obstante os ventos da mudança soprarem cada vez mais fortes.

As exigências curriculares são de uma intensidade desmedida e não têm em consideração a Criança, a sua natureza e todas as constatações de Maria Montessori que têm vindo a ser progressivamente confirmadas pela Ciência. “Depois de ter terminado o curso tive a sorte de participar numa formação promovida pelo Programa de Desenvolvimento Educativo para Portugal (PRODEPIII) de Matemática para o 1.º Ciclo, com duração de dois anos, essencialmente focada na manipulação de materiais. O programa educacional que aqui fora desenvolvido tinha de facto em atenção muitos dos aspetos defendidos em Montessori, falando-se inclusivamente de consciência fonológica num curso que decorreu em paralelo, do Programa Nacional do Ensino do Português (PNEP) (as brochuras deste trabalho ainda se encontram aqui gratuitamente – https://www.dge.mec.pt/materiais-didaticos-elaborados-no-ambito-do-pnep).*

No entanto, algumas coisas correram menos bem, como é normal no desenvolvimento e introdução de novas metodologias, e o Programa que saiu dessas formações e que prometia a aprendizagem experimental e manipulativa acabou por ser eliminado pelo Ministro eleito na altura, resultando num aumento em cerca de um terço do programa escolar, com natural abolição do tempo para manipulação de materiais.

Por outro lado, sente que o Alentejo é um Distrito de certa forma abandonado, não conseguindo acompanhar quem mais precisa de apoio. Ana acompanha Crianças com Necessidades Especiais de aprendizagem, casos onde procura acolher o máximo o seu ritmo, incluindo um acompanhamento mais aproximado na própria casa das Crianças e das próprias famílias. No entanto, sente na sua pele e na pela das famílias a falta de condições por parte do Estado, seja a nível de apoio social, educativo, médico, psicológico, ou de assistência nas localidades alentejanas.

Ana Faria não baixou e não baixa os braços perante as exigências que lhe são impostas enquanto Professora. Toma as Crianças dentro do seu coração, e esta entrega abre-a ao campo das infinitas possibilidades num espaço à partida tão limitado e exigente. Um trabalho árduo, um trabalho que exige esforço e muitas horas extra de trabalho, mas que lhe traz a imensa alegria de ver os seus Alunos felizes na aprendizagem, respeitados nos seus ritmos e diferenças, recriando, desta forma, na sua sala de aula a mudança que deseja ver no mundo, inspirada em Montessori.

Muito obrigada Ana Faria pelo testemunho, pela entrega e que este testemunho voe e inspire tantos outros Professores, e sobretudo o próprio Estado, a ouvir mais as Crianças e os Professores, rumo a uma Educação para a Paz, que depende necessariamente de uma alteração profunda na forma como olhamos as Crianças e na forma como o sistema de Ensino está Estruturado. E cada um de nós pode fazer a diferença.

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1 Comment

  • Reply Vera Cruz 28 de Julho, 2020 at 13:07

    Adorei 😁 definitivamente, uma inspiração!

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