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E quando nos falta a Paciência?

27 de Abril, 2020

Paciência. “Capacidade de tolerar contrariedades, dissabores, infelicidades. Resignação. Sossego com que se espera uma coisa desejada. Perseverança. Demora nas coisas que se deviam executar prontamente. Sofrimento em pontos de honra. Passatempo ou jogo de uma pessoa só.” (in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa).  

Não restam dúvidas que todas as características que fazem parte deste conceito, em tempo de quarentena, são fortemente postas em causa mesmo para as pessoas que são naturalmente mais pacientes. A tolerância às contrariedades a que as Crianças tantos nos habituam fica em pontos mínimos, bem como a capacidade de nos resignarmos ou de esperarmos calmamente pelas ações que demoram naturalmente a ser executadas por elas. Esta capacidade de esperarmos que as Crianças sejam Crianças e que tomem o seu tempo, de sofrer em pontos de honra, porque elas merecem essa honra, parecem esvoaçar com o passar dos dias.

Estar em isolamento com Crianças, isolamento este que já prolonga, conduz a que as consequências da falta de paciência ganhem toda uma nova dimensão. Os gritos, os descontroles emocionais, a perda das estribeiras, o desviar do caminho pedagógico que acreditamos ser o certo, a culpa, a frustração, a tristeza, a impotência, ganham também estes toda uma nova dimensão.

Mas como nos indica a própria definição de paciência, pode também tratar-se de um jogo ou passatempo de uma pessoa só, e, neste caso a falta dela, é algo que também depende de nós, e do nosso trabalho interior, um caminho que talvez esta quarentena nos esteja a convidar a seguir. Pelo bem-estar e sanidade delas, e pelo nosso.

Assim, ficam aqui algumas dicas que podem ajudar na inversão de uma espiral de falta de paciência, com consequências infelizes para a calma e serenidade que tanto queremos que pautem os nossos dias, em casa, em quarentena, e nas nossas vidas.

  • O que despoleta os seus gatilhos?

Observe-se e compreenda. O que despoleta os seus gatilhos?

Todos temos gatilhos. O caos instalado, um pedido constante de brincadeira e de atenção, as correrias pela casa que já contam com mais quilómetros que uma maratona, a sujidade inerente às brincadeiras e experiências das Crianças, a incapacidade de gerir tanta, tanta coisa. Todos temos os nossos gatilhos, e sem nos apercebermos esses gatilhos por vezes refletem padrões, padrões estes que podem estar relacionados com certas crenças que nem sequer sabemos que temos e que determinam a forma como lidamos com tudo o que conduz à falta de paciência.

Sugestão: No momento em que lhe falta a paciência, o que despoletou a situação? Consegue identificar um padrão? De onde vem esse padrão? Tente contornar esses gatilhos. Milhares de brinquedos espalhados pelo chão? Ponha-os todos em sacos (preocupe se com a organização e com as lições pedagógicas para mais tarde) e coloque-os fora do alcance. Deixe dois materiais que estejam verdadeiramente a ser usados.

Não se preocupe tanto com os ensinamentos pedagógicos que quer tanto transmitir. Se isto agora lhe causa frustração e situações de impaciência, então deixe ir para já. E faça este exercício com tudo o que faz despoletar os seus gatilhos.

Da mesma forma que temos vontade de nos deitar, ver uma série ou fazer aquilo que tanto queríamos, as Crianças têm vontade de brincar, de saltar, de desafiar, de inventar e de socializar. Trata-se, aliás, mais do que uma vontade. É a própria vida que assim lhes exige. Elas não compreendem este tempo de isolamento, elas não compreendem os nossos gritos, as nossas frustrações, e elas também não compreendem que também nós temos direito ao nosso tempo, às nossas emoções. E temos.

Mas o tempo que temos para isso pode ser extremamente limitado. E por isso faça um favor a si mesmo. Liberte-se do que tem que ser. É bom estudarmos, lermos, procurarmos, investigarmos sobre pedagogia, atividades, métodos, técnicas. Mas em tempo de crise, permitamos a nós mesmos que a resposta também seja de crise. Liberte se dos “tem de ser.

  • Nos momentos de relaxamento, relaxe mesmo.

Nos trinta minutos que por vezes são os únicos que tem durante o dia para estar em silêncio e consigo mesmo, pode haver a tendência de se afundar no sofá e de fazer zapping ou scroll pela televisão ou pelas redes sociais. Fazemo-lo com base num desejo e com base numa ilusão de que vamos de facto conseguir descontrair por alguns minutos.

No entanto, a verdade é que quando fazemos isso enterramo-nos num bombardeamento de informação, de sugestões, de páginas, de pessoas, de muito e de tudo! E nestes momentos o que precisamos não são de bombardeamentos de tudo, mas sim de mergulhar no silêncio, na calma, em nós.

Repare no Síndrome do Pensamento Acelerado. Uma condição onde a nossa mente fica repleta de pensamentos, muitos pensamentos, promovendo o stress, a falta de foco, a ansiedade e acentuando o próprio desgaste físico e mental. É fácil perceber que a avalanche de informações que os ecrãs trazem à nossa mente contribuiu para este Síndrome, e vão precisamente no sentido oposto ao que queremos de facto ir. Como se sente depois de um momento assim? Como fica a sua mente?

Fica a sugestão: Nestes trinta minutos que tem, afaste o telemóvel, não pense nas tarefas que tem de fazer, desligue a televisão e experiente fazer alguma atividade que lhe dê um verdadeiro prazer ou simplesmente não fazer nada, ficar em silêncio.

Como exemplo clássico, a leitura de um livro. Um livro daqueles que têm a capacidade de nos fazer voar para outra dimensão. Faça algum trabalho manual (pinte aquelas páginas de arte-terapia que tem na prateleira e que nunca pegou, remova da prateleira aquela revista de trabalhos manuais que está a ganhar pó há anos e faça um trabalho, corte, construa. Cozinhe, e cozinhe com o coração. Concretize algumas das atividades para Crianças que viu na internet, capturou a imagem mas ainda não concretizou. Utilize as suas mãos. Do ponto de vista pedagógico, sabemos que a utilização das mãos por parte das Crianças é fundamental para o seu desenvolvimento e bem-estar. Porque não fazemos o mesmo?

Ou simplesmente dedique-se ao silêncio. Dedique-se à arte de aprender a respirar, à meditação, e a todos os enormes benefícios que estas práticas podem trazer à sua vida. Dedique-se a fazer algo que lhe dê prazer, que lhe faça bem.

  • Desconecte-se, para se conectar

Ainda no seguimento do ponto anterior, é certo que as redes socais são idóneas a transmitir ideias, a inspirar-nos em vários sentidos como nas atividades a fazer com as Crianças, na forma como tratamos da nossa alimentação e do nosso corpo, a inspirar-nos a olharmos para dentro, para a nossa alma e para o nosso espírito, e muitas outras coisas tendo em conta também os nossos gostos pessoais.

Mas repare. Existem pessoas cujo estado mental atual não se coaduna com um scroll por onde passam por milhares de contas diferentes, com milhares de sugestões diferentes, cuja imersão para além de acentuar o cansaço, pode ainda conduzir a um aumento de um sentimento de frustração, culpa. Frustração, culpa e ansiedade por não serem capazes de fazer e de serem o que vêm.

A verdade é que as redes socais são também capazes de transmitir por vezes uma ideia de vidas sempre felizes, de pais capazes de inventar e montar diariamente atividades pedagógicas para os filhos e de ainda assegurar uma alimentação saudável e manter uma vida espiritual viva ao mesmo tempo. Se assim for, ficamos profundamente felizes que assim seja e é bom termos fontes de inspiração, mas essas vidas não são a nossa.

O que queremos sublinhar, é que é importante sermos capazes de olhar para dentro e de compreender quando isto nos traz frustração e culpa, em vez de inspiração. Quando é demais, quando está a deixar de ser positivo.

Sugestão: Faça uma revisão das suas redes sociais. O que realmente o inspira e traz bons sentimentos? O que não lhe faz bem neste momento? Desconecte-se! Simplesmente desconecte-se dessas redes, dessas páginas, e conecte-se consigo e com os seus filhos. Estarmos, com a alegria da liberdade, verdadeiramente presentes e conectados com os nossos filhos irá certamente trazer muito mais benefícios do que um tempo passado sem qualidade, em stress, e quem sabe a testar atividades que podem nem se adequar a eles, agora, e a nós.

Centre-se no que tem neste momento, e lembre-se que todos somos únicos. Observe as SUAS Crianças, observe-se a SI mesmo, e tire as suas conclusões, e faça as suas criações.

O que deixar para ver, que seja algo que o inspire verdadeiramente.

  • Isole-se para dentro

Talvez comece a soar a cliché que este tempo de quarentena é uma oportunidade que a vida nos deu para pararmos e para observarmos verdadeiramente as nossas vidas e a nós próprios. E a verdade é que nos dias em que nos falta mesmo a paciência, ouvir esta constatação ainda pode contribuir mais para a falta dela.

Mas pare e pense. Algum dia pensámos ter esta oportunidade na vida? Estejam que contornos estiverem a assumir a sua quarentena, algo há a questionar. O trabalho que continua e que não nos faz sentido. A forma como gerimos a casa, o teletrabalho, Crianças e as nossas necessidades pessoais, e a forma como isso nos afecta. O tipo de educador, pessoa, trabalhador, pai, mãe, irmão, amigo, que verdadeiramente somos e o tipo de educador, pessoa, trabalhador, pai, mãe, irmão, amigo que desejamos ser. Olhe para si e olhe para quem desejava ser, o que está entre essas duas imagens? Esta constatação é algo que esta quarentena poderá efetivamente trazer ao de cima mais do que nunca. É, sim, uma oportunidade de olharmos para dentro, de observarmos que tipo de pensamentos pautam os nossos dias e que realidade criam, é altura de perceber, de compreender de onde veem os padrões, é altura de compreender que, de facto, somos capazes de mudar e que talvez esteja na hora de mudar.

Respire. Não poderíamos recomendar de forma mais profunda esta ferramenta tão poderosa que temos ao nosso dispor e que esquecemos-nos tantas vezes de utilizar. Respirar é viver. Aprenda a respirar e aprenda técnicas que o ajudem a retomar o controlo de si mesmo e da situação quando tudo parece estar a entrar numa espiral de descontrole.

Treine e desenvolva a capacidade de perceber quando a situação de crise está para chegar e defenda-se. Feche-se numa divisão da casa e faça algumas respirações profundas com retenção de ar durante alguns segundos. Retome o controlo do seu cérebro e depois sim, retorne. Poderá, desta forma, retomar e dar às Crianças a postura de consistência e segurança que elas tanto precisam para o seu bem-estar e equilíbrio.

Desenvolva esta capacidade.Observe-se. Escreva, para ninguém ler. E não se julgue.  

  • Planeie… de forma realista e flexível

O planeamento realista ajuda-nos, de certa forma, a estar mais focados no presente. E estar focados no momento presente, treinar a capacidade de atenção plena é fundamental para a nossa paz interior, e para contornar a ansiedade que nos carrega o futuro.

Por vezes, ao acordar, plenos de uma nova e renovada energia, podemos ter a tendência a traçar mil planos para o dia que segue, que incluem limpezas, organizações, tratar da roupa, cozinhar, fazer atividades com as Crianças, leituras, trabalho, entre muitas outras coisas. O dia vai correndo a par com a imprevisibilidade das Crianças, e o sentimento de que os planos não estão a ser seguidos pode gerar mais frustração e ansiedade.

No entanto, ao sermos capazes de algum planeamento, ganhamos a possibilidade de estar muito mais presentes na execução do planeado. Se conseguirmos ir cumprindo aquilo a que nos propusemos, o sentimento de realização vai fazer com que estejamos muito mais presentes e conectados na altura de estar com as Crianças.

No entanto, com Crianças, este tem de ser um planeamento flexível. É normal que as Crianças venham a exigir a sua atenção numa altura em que devia estar a executar uma certa tarefa. O melhor é acionar a sua ferramenta de flexibilidade e dar-lhes a atenção e conexão que elas precisam nesse momento. Será a forma de assegurar fiquem depois mais calmas e equilibradas, equilíbrio e aceitem, com compromisso, que você execute a tal tarefa com dedicação.

E a nós o que nos inspira?

Quem vos escreve deste lado são duas mães que estão também em isolamento com duas Crianças pequenas em casa. Vivemos e partilhamos das mesmas alegrias e das mesmas frustrações que tantos de vocês podem também sentir. É, por isso, com todo o amor que partilhamos parte do que nos verdadeiramente inspira a nos  tornarmos mais pacientes, mais reais, mais calmas e mais viventes do presente nesta fase de quarentena. Fazemo-lo na esperança de que talvez também vos possa inspirar, talvez também vos possa ajudar a alcançar um estado de mais paz e sobretudo de mais paciência amorosa com as nossas Crianças.

  • Allbalance by Sofia Aleixo – Partilha de aulas de Pilates que prometem trazer momentos de bem estar físico e psicológico, e relaxamento, Uma aula onde nos sentimos verdadeiramente acompanhados e cheios de força!
  • Uma Dieta Espiritual com Rute Caldeira – Um ser iluminado, capaz de verdadeiramente mudar a sua vida para melhor através da meditação. Uma prática de meditação acessível a todos, e com grande foco na respiração. No seu canal do YouTube encontra meditações para os sete dias da semana, que começam em práticas muito simples de duração de cinco minutos. Para quem deseja entrar neste mundo mágico, sem dúvida alguém a seguir.
  • Just Natural Please – Uma mãe real, que executa actividades muito simples com o que tem em casa para os seus filhos de 3,5 anos e 15 meses. Além disso, muitas partilhas na sua página do Instagram sobre práticas pedagógicas, de uma forma simples, assertiva e muito compreensível, fáceis de executar e colocar em prática. Uma verdadeira inspiração para todos!
  • Meditações com Montessori de Gabriel Salomão. Uma vertente mais espiritual do Método Montessori, que nos convida a olhar para dentro, e a compreender a nossa natureza, a nossa posição de adultos. Vale a pena seguir as Meditações Montessori e o seu canal do Youtube.

Algum dia imaginou viver dias como aos de hoje? Que estes dias nos conduzam a compreender que o dia de amanhã é uma verdadeira incógnita e que, por isso, o que nos interessa verdadeiramente agora, é o agora.

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