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As Tendências Humanas em Tempos de Pandemia

15 de Abril, 2020

Em pleno ano de 2020, ninguém imaginou passar por uma situação como à que vivemos atualmente. É certo que há alguma informação sobre o assunto, mas por muito que tenha sido previsto, ninguém se tinha colocado de frente com a sua realidade, como todos estamos a ser obrigados a fazê-lo neste momento.

Sabemos a importância de permanecer em casa, em isolamento, e de mantermos a calma para que tudo acabe o mais depressa e da melhor forma possível. Mas o certo é que ao fim de quase quatro semanas de estado de emergência declarado, começamos a sentir os efeitos deste isolamento, com alguma ansiedade, necessidade de sair, de socializar presencialmente com as pessoas e de retomar à normalidade das nossas vidas. E este desejo profundo está intrinsecamente relacionado com aquelas que são as necessidades humanas.

O que são as Tendências Humanas?

Do ponto de vista da pedagogia Montessori, falamos de uma concreta questão a que se dá o nome de Tendências Humanas. Ou seja, necessidades básicas que compõem o comportamento do Ser Humano, seja qual for a sua cultura, origem, raça, religião ou posição social. Todos os Seres Humanos se caracterizam por ter estas necessidades.

Recorrendo ao significado das palavras, importa reter que Tendência traduz uma inclinação ou disposição natural de uma pessoa em relação a uma determinada coisa ou comportamento; e Humanas como que característico da natureza do Ser Humano.

Digamos que as Tendências Humanas são como impulsos orientadores, e que se manifestam de diferentes formas consoante o estágio de desenvolvimento em que o Ser Humano se encontra, pois as tendências estão presentes em toda a sua vida. É também por este motivo que é tão importante na infância, e em termos pedagógicos, a existência de um ambiente preparado, que nutra as Tendências Humanas, sem necessidades de imposição, para que se desenvolvam naturalmente.

No entanto, como já referido, estas Tendências Humanas continuam ao longo de toda a nossa vida, e assim devem e têm de ser nutridas ao longo do tempo para que nos sintamos bem e equilibrados, o que, em tempos de pandemia, é sobremaneira posto em causa.

Quais são as principais Tendências Humanas?

  • Tendência a ser e pertencer
  • Tendência à exploração
  • Tendência à orientação
  • Tendência à ordem e à consistência
  • Tendência ao trabalho
  • Tendência à comunicação
  • Tendência ao abstracto
  • Tendência à repetição e à perfeição
  • Tendência à correcção do erro
  • Tendência ao pensamento lógico e matemático
  • Tendência à independência
  • Tendência ao autocontrolo

Tendência à Exploração

Todos os seres humanos tendem a explorar. A curiosidade conduz-nos a explorar e a desejar compreender. Todos temos esta Tendência, pois de uma forma ou de outra, todos temos um intrínseco desejo de aprender, procurar, ler, viajar, conhecer. E essa exploração faz-se por diversas formas:

  • Exploração Sensorial – mais forte nas Crianças até aos seis anos, através da Mente Absorvente (visão, audição, tato, movimento)
  • Exploração Imaginativa – mais forte nas Crianças a partir dos seis anos, através da Mente Racional (“e se a lua cair?”)
  • Exploração Emocional – mais forte nos Adolescentes (turbilhão de sentimentos)
  • Exploração Científica
  • Exploração Social
  • Exploração Económica

Tendência à Orientação

Não exploramos sem motivo, exploramos porque nos precisamos de orientar. Precisamos de saber onde estamos e com o quem podemos contar para conseguir sentir-nos minimamente seguros. Esta Tendência representa a habilidade de nos orientarmos perante novas situações, de nos adaptarmos.  

Tendência à Ordem e à Consistência

“Ordem” é fundamental. Se precisamos de nos orientar é porque precisamos de ordem. Tem de haver uma ordem na nossa vida, podendo esta ser física, lógica, emocional e/ou social. Precisamos de ordem a nível pessoal, organizacional, nacional, estatal. A questão das rotinas, tão falada, encaixa-se aqui, estando aqui implícito outro conceito que é a consistência. O Ser Humano precisa de ordem e consistência nas suas rotinas para se sentir seguro e confiante.

Tendência ao Trabalho

O Homem tem uma tendência para o trabalho, o que também se encontra relacionado com a Tendência à Atividade e à Manipulação. A vida empurra-nos para usar o que a própria vida nos deu, nos transmitiu, e que de acordo com uma situação ideal encontra eco no nosso propósito. Pode até ser que lhe chamemos hobbie. Trabalho não significa repetir, repetir, repetir, tal como o modelo implementado pela Revolução Industrial cravou na nossa cultura, sem um propósito de aperfeiçoamento. A Tendência para o trabalho implica criar, movimentar, realizar, contribuir, representa sim a nossa tendência a realizar algo que nos satisfaz, que nos dá prazer, que nos realiza enquanto indivíduos dando uso aos nossos conhecimentos, aptidões e paixões.

Tendência à Comunicação

Todos tendemos à comunicação, conceito este que traz algo implícito a tendência a nos encontrarmos e a encontrarmos o outro, e a tendência a compreendermos e a sermos compreendidos, através da fala, da escrita, da leitura e da interação física. Esta tendência carrega ainda a nossa necessidade intrínseca de nos compartirmos com o outro, ao invés de assola-lo ou rebaixa-lo.

Tendência ao Abstrato

A Tendência ao Abstrato é algo presente no nosso dia-a-dia, até mesmo na comunicação. “Estou triste”, é um conceito abstrato. Todos tendemos ao abstrato e serial impossível comunicar apenas com o concreto. “Esta maçã é deliciosa”, se falássemos só com o concreto teríamos que descrever a maçã e o que quer dizer o delicioso. A abstração está presente muitas vezes e está diretamente relacionada com a imaginação, a abstração que damos às coisas leva-nos a imaginar.

Tendência à Repetição e à Perfeição

Esta Tendência conduz-nos à repetição com vista à exatidão, perfeição. Se queremos pintar uma flor e não estamos a conseguir, vamos repetir a tarefa as vezes que acharmos necessárias para chegar ao nosso conceito de flor, ao nosso conceito de perfeição. Não é a repetição do erro de que se fala aqui, é a repetição do trabalho, da atividade.

Tendência à Correção do Erro

Tendência a corrigir o erro, sempre. Para começar estamos habituados a corrigir o outro, mas não é disso que falamos, isso não é natural. Falamos de quando vemos que algo está mal, tendemos a corrigir, para nós mesmos.

Tendência à Independência

Tendemos à independência desde o nascimento, começamos pela busca da independência física, depois procuramos ao longo da nossa vida a independência emocional, económica, laboral.

Tendência à Atividade

Representa a habilidade de nos movimentarmos tanto mental como fisicamente. A necessidade de movimento físico é naturalmente mais presente nas Crianças, mas também está presente nos adultos.

Tendência a Ser e Pertencer

Necessidade de ter um grupo, de pertencer a algo. Todos sentimos a necessidade de pertencer a algo, seja a uma família, a um grupo de trabalho, a uma religião, a um clube, etc. Esta necessidade de ser e pertencente é-nos intrínseca e deve ser trabalhada para não de tornar um desvio.

Em conclusão

Podemos descrever todas as Tendências Humanas numa única frase: São o impulso guia que nos ajuda a sobreviver.

E ao observamos de perto algumas Tendências Humanas faladas por Maria Montessori e acima descritas, compreendemos que muitas delas se encontram suprimidas nesta fase de isolamento. É uma nova problemática, pois para muitos de nós o que era certo (em relação a trabalho, habitação, futuro, tempo) deixou de o ser. Tendências como às da Comunicação, profundamente afectada pois embora possamos continuar a comunicar verbalmente, falta a parte física que é tão importante para povos que dão tanto valor ao abraço como o nosso.

O isolamento como ao que vivemos, por si só representa algo que é contra a natureza do Ser Humano, e tal como acontece com tudo o que vai contra o que é natural, é algo que pode gerar situações de ansiedade, tristeza, e até depressão.

No entanto, tendo uma melhor perceção destas Tendências Humanas, destas necessidades vitais, é-nos possível ter um momento de auto-observação e perceber o que precisamos trabalhar neste momento para melhorar estas lacunas. Mas sobretudo, é preciso reconhecer quando não estamos a ser capazes de o fazer sozinhos e quando é hora de pedir ajuda .

Vamos ficar todos bem, e precisamos continuar a caminhar todos juntos para que tudo passe rápido e para que terminemos este período da forma mais saudável possível (seja saúde física ou mental).

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