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Modelos Pedagógicos Alternativos Reggio Emilia

Filosofia Pedagógica – Reggio Emilia

11 de Outubro, 2017

Desde o começo do Jardim da Descoberta que o nosso grande interesse se prendeu com a partilha de pedagogias de ensino alternativas ao modelo convencional.

A Pedagogia Montessori é sem dúvida um dos métodos que mais se destaca. Mas outras abordagens pedagógicas existem e que se erguem sob denominadores comuns aos da Pedagogia Montessori, como sejam o respeito profundo pela Criança e pelo cultivar da sua independência, criatividade, auto-motivação, auto-conhecimento, e pela importância de envolver a Natureza neste caminho de aprendizagem.

Dentro destes modelos, ganha, então, destaque a Abordagem Pedagógica conhecida por “Reggio Emilia”, que foi considerada nos anos 90 como a melhor abordagem educativa do mundo.

Mas o que tem de tão especial este modelo?

 

Origem

Em 1946, após a Segunda Guerra Mundial, numa aldeia chamada Vila Cella, localizada na província de Reggio Emilia no norte de Itália, os residentes depararam-se com um rasto de destruição e pobreza da guerra que acabara de terminar.

Deparando-se com aquela realidade, mães, trabalhadores e comerciantes surgiram com a ideia de construir uma escola para Crianças. Estas pessoas, que tinham perdido tudo durante a guerra, acabaram por se unir, partilhando todos do objectivo de concretizar a tal ideia.

Perante a escassez de recursos, erguer a escola só foi possível com a venda de material de guerra deixados pelos alemães no pós-guerra, tendo sido um movimento inicial que envolveu toda a comunidade, mas especialmente os pais, tendo nascido do desejo de reconstrução da própria história e da possibilidade de oferecer uma vida melhor aos seus filhos.

Esta escassez de recursos veio ainda a marcar profundamente este modelo, pois com origem nessa falta de recursos, faz-se uso de muitos materiais naturais e muitos materiais de desperdício (restos de tecidos, botões, madeiras, retalhos, tudo o que se possa imaginar). Todas estas “peças soltas” destituídas dos seus propósitos originais, são grandemente utilizadas na expressão das Crianças nas escolas de inspiração Reggio Emilia.

Ainda muito devido a esta história de base, Reggio Emilia é uma filosofia diferente, enraizada na vontade das famílias de construir um mundo melhor através da Educação. É uma abordagem inspiradora, motivante e que nos devolve a esperança de acreditar numa educação para todos, feita por todos, num espaço educativo aberto aos outros e onde as relações são a base para toda a aprendizagem.

 

Loris Malaguzzi – O grande impulsionador

Loris Malaguzzi foi o grande impulsionador da Filosofia Reggio Emilia. Nasceu em 1920 e formou-se em Educação. Após a Segunda Guerra Mundial, ouviu falar deste grupo de moradores inspiradores e juntou-se a eles.

“Esta ideia pareceu-me incrível! Corri até lá na minha bicicleta e descobri que tudo aquilo era verdade. Encontrei mulheres empenhadas em recolher e lavar pedaços de tijolos.” (Malaguzzi, 1999, p. 59)

lorisAo longo dos anos esta experiência transformou-se numa abordagem educativa de grande qualidade, muito devido ao trabalho e ao pensamento do Prof. Loris Malaguzzi e da sua equipa. 

A ambição de Loris fez com que posteriormente nascessem outras escolas nos subúrbios e nos bairros mais podres da cidade, todos elas em auto-gestão. Encontram-se agora espalhadas um pouco por todo o mundo, sendo que normalmente às escolas desta abordagem que estão fora da Província de Reggio Emilia, dá-se o nome de “Escolas de Inspiração Reggio Emilia”.

Através deste processo de construção e ampliação das escolas, a maior lição que estes pais passaram aos seus filhos foi a possibilidade de reconstrução com base nas ruínas e da importância do sentido de colectividade e de união para se alcançar um objectivo.

 

A Pedagogia

Numa escola de inspiração Reggio Emilia tanto os pais como os alunos fazem parte dela. Os eventos são organizados pelas famílias, professores e alunos, tendo como grandes objectivos a integração e a colectividade. Aqui, a escola constitui uma continuidade do lar e promove uma crescente intensificação do seu papel sociocultural na sociedade onde está inserida.

O ensino em Reggio Emilia funciona com base na experiência com todo o tipo de materiais e usando os cinco sentidos. Este facto proporciona o livre curso rumo à criatividade da Criança, sendo um ponto forte a ligação à Natureza. Não existem programas pedagógicos obrigatórios, nem actividades delineadas para cada dia. Cada dia é único e imprevisível.

Nas pré-escolas Reggio Emilia cada criança é vista como infinitamente capaz, criativa, e inteligente. O trabalho do professor é suportar estas qualidades e desafiar os alunos das formas mais apropriadas.” Louise Boyd Cadwell

Um dos princípios base assenta  no facto de as Crianças terem direitos no que respeita à sua aprendizagem. São colocadas no centro da prática ao serem tratadas como “portadoras de conhecimento”. Valorizando-se a Criança desta forma, os educadores têm de colocar mais ênfase no ouvir verdadeiramente as Crianças, reconhecendo-se que estas precisam de amplo tempo e de amplo espaço para se expressarem a si próprias.

As Crianças são assim construtores activos do conhecimento, sendo encorajados a ser investigadores ao mesmo tempo.

ReggioAssim, o trabalho nestas escolas ganha muitas vezes a forma de projectos onde as Crianças têm oportunidade de participar activamente, questionar, explorar e compreender. Além disso, como referimos acima, sendo o sentido de comunidade fortemente cultivado, é dado um grande destaque ao desenvolvimento social das Crianças como parte da Comunidade e às suas relações com os outros, sejam crianças, famílias ou professores.

“A nossa imagem das crianças não as considera mais como isoladas e egocêntricas, não as vê unicamente como envolvidas na acção com objectos, não enfatiza apenas aspectos cognitivos, não menospreza sentimentos ou o que não seja lógico… Ao contrário, a nossa imagem da criança é rica em potencial, força, poder, competência, e, acima de tudo, conectada com adultos e crianças.” Loris Malaguzzi

Não obstante não termos chegado perto que alcançar esses ideais impossíveis, ainda assim o atelier sempre nos compensou. Tem provado, como desejado, ser subversivo – gerando complexidade e novas formas de pensamento. Sempre alcançou combinações e possibilidades criativas entre as diferentes (simbólicas) linguagens das crianças” (As Cem Linguagens das Crianças).

Além disso, associada à forte importância que se dá à expressão artística, existe nestas escolas a figura do chamado “Atelierista“. Nas escolas de inspiração Reggio Emilia, há sempre um Atelierista, que não precisa de ser necessariamente formado em Artes. É alguém que tendo em contra as características e contexto de cada escola, dá um suporte especializado à concretização das ideias e projectos levados a cabo pelas Crianças. Encaminha as Crianças para a construção do seu conhecimento através da expressão das suas cem linguagens.

Relembrando ainda o espírito de união para se alcançarem melhores resultados, estas escolas são construídas com a intervenção de profissionais das mais variadas áreas, como sejam arquitectos, pedagogos, físicos, engenheiros, biólogos, dançarinos, músicos, médicos, e muitos outros.

Queremos que seja a criança a pensar pela sua cabeça e não pela dos outros, que seja capaz de decidir responsavelmente, que seja criativa e não que faça aquilo que os adultos esperam dela. A abordagem Reggio Emilia permite, pois, que a criança, ao seu próprio ritmo, seja a protagonista da construção do seu próprio conhecimento. Envolvêmo-la assim naquilo que ela gosta e aproveitamos a oportunidade para introduzir os conteúdos adequados para que as aprendizagens sejam significativas, façam sentido, mas sem perder de vista os valores humanos e a preocupação com o mundo que a rodeia”, Revista Pais&Filhos, Edição de 18/04/2016

 

Princípios Fundamentais

  1. As Crianças são capazes de construir a sua própria aprendizagem, sendo conduzidas pelos seus interesses para compreender e saber mais;
  2. As Crianças formam uma compreensão de si mesmas e do seu espaço no mundo através das suas interacções com os outros. Daqui o foco na colaboração social e no trabalho em grupos, onde todos estão em igualdade e onde os pensamentos e ideias de todos são considerados.
  3. As Crianças são comunicadores. A comunicação é um processo e uma forma de descobrir coisas, fazer questões, utilizando-se a linguagem como um jogo, com sons e ritmos, e como meio de investigação e reflexão nas suas próprias experiências. Ao invés de o adulto dar as respostas, aqui todos procuram as respostas em conjunto;
  4. O Ambiente é o terceiro professor. Reconhece-se a importância da existência de um ambiente repleto de luz natural, ordem e beleza para inspirar a Criança. Nada é deixado ao acaso, e cada objecto e lugar são pensados para inspirar a Criança a aprofundar cada vez os seus interesses. O espaço encoraja a colaboração, a comunicação e a exploração, e respeita a Criança como um ser capaz e merecedor de materiais e ferramentas autenticas.
  5. O adulto é mentor e um guia. O nosso papel enquanto adultos é observar as nossas Crianças, ouvir as suas questões e as suas histórias, descobrir os seus interesses e promover oportunidades para explorar esses interesses. Os projectos são conduzidos pelas Crianças e não são planeados, vão avançando à medida dos interesses das Crianças.
  6. Ênfase na documentação e registo dos pensamentos das Crianças. Há um grande cuidado no registo dos pensamentos das Crianças e sua progressão, tornando os seus pensamentos visíveis de diferentes formas: fotografia, transcrições dos pensamentos, representações visuais (desenhos, esculturas, etc), tudo de forma a mostrar à Criança o seu processo de aprendizagem. Reggio III
  7. As Cem Línguas da Criança. Talvez dos aspecto que mais se destacam deste método, é o reconhecimento de que as Crianças utilizam muitas maneiras de expressar o seu entendimento e expressar os seus pensamentos e criatividade. Muitas formas de pensar, descobrir, aprender, que expressam através do desenho e da escultura, da dança e do movimento, da pintura e brincar ao faz-de-conta, do moldar e da musica. tudo faz parte da Criança e tudo deve ser promovido e tido em conta. Brincar e aprender estão profundamente ligados, e o trabalho e descoberta com as mãos são valorizados.

 

Montessori & Reggio Emilia – Diferenças

Há quem atribua a base educacional da abordagem Reggio Emilia a Maria Montessori, sendo, no entanto, uma questão discutível. Não obstante ambos acreditarem profundamente na competência, recursos e independência da Criança, há alguns pontos que as distinguem.

  • Para Maria Montessori as Crianças de todo o mundo aprendem da mesma forma, e, por isso, é um método que pode ser aplicado em qualquer parte do mundo, independentemente da cultura ou localização, sem prejuízo das necessárias adaptações. Já para a abordagem Reggio Emilia as Crianças são um produto da sua cultura e, assim, aquilo que funciona para uma determinada área cultural, não funcionará necessariamente noutra, devendo os professores adaptar a sua filosofia à cultura onde se encontram;
  • No método Montessori encoraja-se o trabalho individual com o controlo de erro, deixando-se a Criança livre para trabalhar sem a necessidade de intervenção constante por parte do adulto. Já em Reggio valoriza-se a colaboração em pequenos grupos de trabalho onde a aprendizagem é suportada pelos outros. Isto reflecte a sua filosofia educacional de socio-construtivismo, onde as Crianças constroem o sentido de si próprias num ambiente e contexto sociais;
  • Outra importante diferença é a observação vs documentação. Os Guias Montessori observam como cientistas, registando cuidadosamente o trabalho e progresso de cada Criança, de forma a saber que lições e materiais ir oferecendo, sendo registos de cariz privado. Ao contrário do que se passa em Reggio, a documentação é uma forma de registar não apenas o trabalho da Criança, mas também as suas palavras, os seus pensamentos, o que é feito com recurso a papel, a video e a gravações. Regista-se o trabalho da Criança e o seu progresso social e académico, sendo estes registos muitas vezes partilhados com a comunidade;
  • Em Montessori a ordem é profundamente valorizada, devendo cada material ser devolvido ao seu lugar no final da sua concreta utilização. Em Reggio não é necessariamente assim, podendo uma sala ser deixada exactamente como está de forma a dar-se continuidade ao trabalho no dia seguinte.
  • Tabela de diferenças:
Montessori

  • Criado para pais
  • Crença na Criança Universal, ou Criança do Mundo
  • Estádios de desenvolvimento definidos
  • Ambiente Preparado
  • Vai de encontro às necessidades da Criança;
    Materiais concebidos para conceitos especificos
  • Professor como ligação entre a Criança e o ambiente;
  • Personalidade forma-se pela experiência;
  • Foco na autonomia e independência
  • Base na liberdade
  • Observação
  • Observação para definir o que vem depois

 

Malaguzzi (Reggio)

  • Criado por pais
  • Crença de que as Crianças estão profundamente embutidas numa determinada cultura
  • Crença de que utilizar estádios de desenvolvimento é limitativo
  • Ambiente “Amável” (a totalidade dos edifícios e solos formam o ambiente)
  • Vai de encontro às necessidades da família
  • Os materiais são parte do ambiente – objectos naturais, arte, etc;
  • Os professores co-aprendem com as Crianças;
  • A personalidade forma-se num contexto social
  • Foco na conexão entre a Criança e o ambiente (interdependência)
  • Base na comunicação e relacionamentos
  • Documentação
  • Ouvir para definir o que vem depois
Fonte: http://montessoritraining.blogspot.pt/2013/08/comparing-montessori-reggio-emilia.html

 

Escolas de Inspiração Reggio Emilia em Portugal

Esta é de facto uma Pedagogia que vai ganhando terreno a nível mundial. Após ter sido reconhecido, nos Estados Unidos, como o sistema educacional infantil mais admirável do mundo em 1991, o seu reconhecimento tem sido ascendente. No entanto, em Portugal ainda são muito poucas as escolas que se podem dizer que verdadeiramente procuram aplicar os ensinamentos desta abordagem:

 

 

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